Prefeitura do Recife

 

aloísio magalhães

Aloisio Magalhães foi um criador múltiplo. Pintor, pioneiro do design gráfico no Brasil, administrador cultural, incansável defensor do patrimônio histórico e artístico. Por não distinguir fronteiras rígidas entre tantas e várias atividades, fez de cada uma delas a extensão das outras, dando curso a um processo de hibridismo e contaminação entre áreas criativas comumente separadas.

Nascido no Recife, em 1927, ingressou na Faculdade de Direito desta cidade em 1946. A partir de 1950, participa do Teatro do Estudante de Pernambuco, dirigindo o seu Departamento de Teatro de Bonecos e é um dos fundadores das Edições TEP, embrião do Gráfico Amador. Em 1949, participa do IV Salão de Arte Moderna do Recife. Dois anos mais tarde, recebe bolsa do governo francês para curso de museologia no Louvre. Em 1953, já de volta de Paris, participa da II Bienal de São Paulo com duas pinturas.

Em 1954, funda, no Recife, o Gráfico Amador, mistura de atelier gráfico e editora, com Gastão de Hollanda, Orlando da Costa Ferreira e José Laurênio de Mello. Expõe no Museu de Arte Moderna de São Paulo e no Ministério da Educação e Cultura. No ano seguinte, participa da III Bienal de São Paulo.

Em 1956, realiza nova exposição individual no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Ainda nesse ano, viaja para os Estados Unidos onde, ao estagiar com Eugene Feldman, da Falcon Press na Philadelphia, familiariza-se com a técnica de impressão off-set. Participa do "Annual Christmas Show" do Print Club, Philadelphia. Publica, em 1957, ainda com Eugene Feldman, o livro DOORWAY TO PORTUGUESE, com tiragem de 750 exemplares. Por este trabalho ganha três medalhas de ouro do Art Directors Club de Philadelphia. Expõe em Nova York, na Roland de Aenlle Gallery. O Museu de Arte Moderna de Nova York adquire seu quadro PAISAGEM, 1956, feito com gouache e nanquim.

No ano seguinte, expõe no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Exerce a cátedra de cenografia no curso de arte dramática da Universidade do Recife. Publica ANIKI BOBÓ, "ilustrado" por João Cabral de Melo Neto e IMPROVISAÇÂO GRÁFICA, onde interpreta tipograficamente textos de autores diversos. Em 1959, expõe nos Estados Unidos (Philadelphia, San Francisco e Nova York). Publica e lança, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, mais um livro publicado com Eugene Feldman - DOORWAY TO BRASILIA. Em 1960, integra a representação brasileira na XXX Bienal de Veneza e inicial atividade de designer, fundando o que, dentro de poucos anos, se tornaria o mais importante escritório de design do país.

Em 1961, expõe quinze pinturas a óleo na Petite Galerie. Esta seria, por muito tempo, sua última exposição como pintor. Daí por diante, iria se dedicar integralmente ao design, criando inúmeros símbolos e diversificadas peças gráficas para os mais variados fins. Integra, em 1963, o grupo criado pelo governador do Estado da Guanabara, Carlos Lacerda, para organizar a Escola Superior de Desenho Industrial - ESDI, então a primeira escola de design na América Latina.

Em 1964, ganha o concurso para criação do símbolo do IV Centenário da Cidade do Rio de Janeiro. Como designer, este será seu primeiro trabalho de grande repercussão pública. O símbolo surge é reproduzido nos contextos mais variados da sociedade. Max Bense, filósofo alemão, dedica a este trabalho um extenso estudo. No ano seguinte, elabora projetos de identidade visual para a Light S.A. e para a Bienal de São Paulo, ambos os projetos resultados de concursos fechados a profissionais convidados. Projeta o Museu do Açúcar e do Álcool em Pernambuco, desenvolvendo novas técnicas museográficas.

No biênio que se segue, ganha concurso para o design de um novo padrão monetário brasileiro. A partir daí se torna consultor da Casa da Moeda e do Banco Central do Brasil para o desenvolvimento de novos desenhos para notas e moedas brasileiras. Expõe na Universidade de Stuttgart seu trabalho para o IV Centenário do Rio de Janeiro. Em 1970, desenvolve o primeiro grande projeto de design no país, para a Petrobrás. O projeto abrange desde a criação de um símbolo às embalagens de óleo, aos elementos de identidade visual nos postos de distribuição e à bomba de gasolina. No ano seguinte, publica mais um livro experimental, A informação esquartejada.

Em 1972, expõe seus Cartemas, título aplicado por Antônio Houaiss às suas imagens multiplicadas feitas com cartões postais. Expõe no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Brasília, em Amsterdan e em Nova York. Retoma a atividade pictórica, realizando, em Olinda, uma série de aquarelas. Realiza, em 1973, uma série de litografias em preto e branco, homenageando o artista holandês E. M. Escher.

Publica, em 1974, TOPOGRAPHICANALYSIS OF A PRINTED SURFACE, da série Quadrat Print editada por Steendruckkerij de Jong & Co, Holanda. Dando continuidade a seu trabalho de designer, seu escritório desenvolve sistemas de identidade visual para grandes empresas nacionais, privadas e estatais - Banco Central do Brasil, Caixa Econômica Federal, Complexo Petroquímico de Camaçari, Furnas Centrais Elétricas, Banco Nacional, Companhia de Gás de São Paulo, Itaipu Binacional, Comlurb - Companhia Municipal de Limpeza Urbana, Grupo Peixoto de Castro, Companhia União dos Refinadores de Açúcar e Café, Companhia Souza Cruz, entre outros.

Em 1975, coordena e implanta uma instituição dedicada à analise da cultura brasileira - o Centro Nacional de Referência Cultural (CNRC). Trata-se de sua primeira investida no território das ações de Estado em relação à cultura, É a partir daí que traça o que pode ser considerado como sua última e definitiva intervenção no cotidiano da vida brasileira.

No ano seguinte, é instado, pelo Banco Central do Brasil, a contribuir, mais uma vez, para a remodelação do padrão monetário brasileiro, sendo desta vez necessário estabelecer um sistema complexo de criação, englobando desde a escolha do temário a ser utilizado a definições importantes quanto ao uso da tecnologia disponível, visando conquistar para o país a autonomia na produção de cédulas e de moedas.

Em 1979, assume a direção do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN. Suas propostas de revisitação a conceitos enunciados por Mário de Andrade 50 anos antes o levam, nessa circunstância, a promover uma revolução nos valores àquela época cristalizados no IPHAN. Seu conceito amplo de bem cultural e sua formulação de que o melhor guardião do patrimônio é a comunidade que com ele mais de perto se relaciona estabelecem novos tempos para o trato com a memória nacional. É nessa ocasião que Aloísio, se valendo se sua habilidade como designer, começa a traçar um novo desenho para o quadro institucional relacionado com a questão cultural no Brasil. Em janeiro de 1980, fruto de intensa atividadede convencimento político, o IPHAN é alçado à categoria de Secretaria do MEC e é criada a Fundação Nacional Pró-Memória.

Em 1981, viaja pelo país fazendo conferências, participando de debates, reuniões, simpósios e seminários. Coloca a questão da recuperação da memória em pauta na grande imprensa do país e discute constantemente, com todo tipo de interlocutor, a busca de referências para o desenvolvimento brasileiro levando-se em conta nossas características culturais. Prosseguindo em seu projeto de reorganização do aparato estatal para o trato das questões relativas à cultura, assume a Presidência da Fundação Nacional de Arte e é conduzido ao cargo de Secretário da Cultura.

Em 1982, realiza sua última série de desenhos - um conjunto de litografias em preto e branco retratando Olinda, enquanto se prepara para defender a inscrição da cidade na lista do Patrimônio Mundial da UNESCO, em Paris. Participa, em junho, de uma reunião de Ministros da Cultura dos países de língua latina em Veneza. Após ser eleito presidente do encontro, Aloísio faz seu último pronunciamento - uma defesa apaixonada e veemente das questões prementes da nossa sociedade em oposição àqueles habituados a tratar a cultura exclusivamente por sua vertente culta. Logo após, sofre violento derrame cerebral. Às pressas, é conduzido para Pádua, onde vem a falecer na madrugada de 13 de junho.