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Coletivo Máquinas Que Não Funcionam (CE) | Projeto Residências Em Fluxo

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Eu, Metade de Dois

Assim como as máquinas, as palavras entram em desuso e se tornam obsoletas quando já não atendem mais à dinâmica da vida em curso. Exemplo disso é o dicionário, que mais parece uma despensa com prateleiras cheias de palavras empoeiradas. Contudo, os sentimentos e os fatos que tornaram tais palavras obsoletas jamais desapareceram entre nós; ao contrário, estão cada vez mais à flor da pele. Sendo assim, é preciso criar mais e novas palavras para satisfazer as muitas e velhas necessidades humanas; é preciso criar mais e novas máquinas.

Assim como sabemos que a morte não representa o fim das coisas, mas uma parte da trajetória natural dos seres vivos, a obsolescência é o destino natural das máquinas. Teoricamente, as máquinas têm um tempo de uso, assim como os seres vivos têm um tempo de vida. Contudo, algumas máquinas extrapolam a previsão do seu tempo de vida útil e se inserem no contexto cultural e tecnológico de outras épocas, provocando um estranhamento e um desdobramento das suas funções originais. É possível encontrar, no ateliê de um artista em 2010, uma máquina de escrever fabricada na década de 1970 ocupando uma importante função dentro do processo criativo ao lado de ferramentas como o Twitter. Ou uma máquina de costurar fabricada nos anos 1960 bordando em fios dourados capas para cadernos ao lado de latas de tinta spray que revestem paredes com imagens coloridas elaboradas nesses mesmos cadernos cuidadosamente manufaturados.

Mas quem precisa de caderno, tinta, pincel, lápis, papéis, molduras, máquinas de escrever ou de costurar quando se tem a câmera digital e o computador, que copia, corta, cola, imprime, edita, recebe e envia? Ninguém precisa de nada disso, absolutamente, se de fato tudo isso não estiver a serviço da construção de uma poética que trate todas as coisas entre o céu e a terra como partes de um todo indissolúvel e indissociável. Recentemente, entrou em voga o uso do termo vintage para designar qualquer coisa que traga na sua aparência uma referência ao passado. Assim como o termo, essa referência ao passado também é passageira. Não é o caso aqui, quando os artistas usam máquinas “antigas” para produzir alguns dos trabalhos desta exposição. As Máquinas que Não Funcionam são extensões da natureza e das ideias desses dois artistas que viajaram 700 quilômetros, de Fortaleza até João Pessoa, em um Kadett Hatch branco, ano 1995, para desenvolver trabalhos que levassem em conta aspectos estéticos e filosóficos das extensões artificiais do homem contemporâneo e a relação deste com os meios.

Os trabalhos produzidos pelo coletivo Máquinas que Não Funcionam durante o Residências em Fluxo propõem uma reflexão das relações vitais entre natureza e máquina e das relações artificiais entre homem e homem, cabendo ao espectador buscar o viés estético que o conduzirá até as questões centrais e adjacentes de cada trabalho.

Fábio Queiroz de Medeiros

João Pessoa, julho de 2010

 

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