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Jeims Duarte

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Crux
Jeims Duarte

Crux [krΛks (Ingl.)], s. cruz; dificuldade, enigma, mistério; problema árduo; o nó da questão, o busilis; o essencial. 

Recentemente, numa campanha publicitária da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém (PE), patrocinada pela CHESF (Companhia Hidroelétrica do São Francisco), uma foto de postes de transmissão elétrica fazia alusão a crucifixos, dada a evidente analogia entre estes dois objetos, digamos, cruciformes.

Tempos atrás, numa noite chuvosa, fixei o olhar sobre um poste de iluminação pública do Recife ... e me reconheci nele. O aspecto isolado, soturno, magro e confuso daquela estrutura, tão banal em qualquer ‘paisagem urbana’, parecia se me apresentar como um espelho embaçado. Em retrospecto, talvez tivesse sido melhor encarar tal ‘reflexo’ como meramente especulativo – e não como realmente (ainda que misteriosamente) especular.

Pensei, então, na sempre citada assertiva pessoana de que nossas representações estéticas são sempre um encontro (ou um embate?) entre duas paisagens: aquela que vemos diante de nós e aquela que trazemos dentro de nós. Pensei, então, não em crucifixos, mas nos postes de Edward Hopper (os primeiros, na Arte, a me arrebatar) e sua possível leitura como ‘símbolos da moderna solidão americana’.

Pensei que, sem dúvida, o real que servia de espelho a Hopper seria diferente do meu, mas que comungávamos, ainda assim, da mesma lógica visionária; ou melhor, visiva.

Romantismo? Decerto, mas a alma romântica pode ser mais ou menos obcecada por esquadrinhar racionalmente seus próprios arroubos. Pouco depois me vi assaltado por ressalvas de que tal cisão entre uma paisagem externa e uma interna seria prerrogativa de um sujeito por demais ambicioso, obcecado pelo impulso sublime de fundir-se ao real, mas selecionando os matizes de tal fusão.

Paradoxalmente, tal arbítrio garantiria a exteriorização de imaginários ‘pessoais’ e ‘autênticos’. Deveria não apenas ser óbvio - como também necessário - que meu poste não fosse, por exemplo, o de Hopper. Mais do que a superação de uma angústia de influência, isto seria o corolário de que a realidade ‘objetiva’ não é a mesma para todos, funcionando como elemento para sínteses diferenciadas por parte de distintos sujeitos expressivos.

Neste sentido, um citado aspecto da obra de Hopper é a justaposição visual entre signos da civilização e indícios da natureza, como num farol sobre uma colina verdejante. Ora, se consideramos o humano como parte da paisagem natural, concluímos que existe uma outra relação possível entre signos ‘naturais’ e ‘civilizatórios’, além da sua justaposição.

Esta forma seria, por assim dizer, a antropomorfização dos elementos da paisagem (quer natural, quer civilizatória), como quando o aspecto arqueado e a luz débil de um poste me remetem não tanto à nossa ‘moderna solidão’, mas à nossa moderna impotência.

Assim, a corroborar a arbitrária diversidade dos sujeitos, é possível pensar na arbitrária diversidade de seus objetos, lembrando por exemplo Krauss, ao falar de paisagem, arquitetura, não-paisagem e não-arquitetura enquanto instâncias da produção escultórica. Se tais instâncias tridimensionais forem, por acaso, desenhadas, teremos então ainda mais possibilidades de combinatória entre diferentes Aleijadinhos e diferentes pedras sabão.

Espíritos únicos lançariam luz única sobre recortes únicos do real múltiplo.

Contudo, caso não a vejamos (paisagem ou não-paisagem; natural ou urbana) como algo total e predeterminadamente exterior a nós; como um objeto privilegiado de nossa paixão, teremos então algo mais próximo do que Lefebvre definiu como paisagem total; paisagem questionadora das dicotomias sujeito/objeto; dentro/fora; paisagem a ser mais vivenciada do que observada, moldada e recortada.

Contudo ainda, feliz ou infelizmente, certos olhos famintos de mundo; famintos de concreto, fiações, tubos, conversores, placas, cabos, parafusos, eletrodos e elétrons preferem justamente observar a vivenciar. Tolos, preferem navegar na ‘ilusória’ realidade exterior a viver na terra firme da intersubjetividade inexprimível.

Nossas raízes aqui, quando existem, são aéreas, frontais, sem chão e sem fundo...

Havia postes em Bizâncio?


SERVIÇO
Crux
Jeims Duarte
Abertura: 15 de fevereiro às 18h 
Exposição: 16/02/2010 a 12/03/2011
MAMAM no Pátio
Pátio de São Pedro, Casa nº 17, São José
Recife - PE - Brasil
Entrada Gratuita

INFORMAÇÕES
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+55 81 3355 6765


Fotografia: Mozart Santos

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