Marcelo Solá
“São as próprias coisas, do fundo de seu silêncio, que deseja conduzir à expressão”.
Merleau-Ponty em O Visível e o Invisível.
A BIBLIOTECA DE MARCELO SOLÁ
Por Ana Luisa Lima
Os desenhos de Marcelo Solá são como os contos fantásticos de Borges –
estão lá, resolvidos numa forma definitiva, mas as possibilidades de lê-los
tendem ao infinito. Ainda que sejamos capazes de uma percepção de todo,
fragmentos da obra sempre nos escapam: como se preferissem o ficar em
segredo, apesar de gritarem sua presença. Por isso mesmo, talvez não seja
possível conseguir absorvê-los num único olhar.
O artista brinca com o (in)inteligível quando articula elementos gráficos e
palavras. Os textos podem ser (re)criados a cada nova leitura e re-significados
quando, mormente, nossos contextos resolvem, por um momento, se integrar à
obra.
Na experiência do desenho, corpo e pensamento do artista procuram se revelar
nos traços-gestos impressos no papel. Assim, Marcelo resguarda a
potencialidade poética dos desenhos de criança em que os traços são mais
expressões puras do que foi, e está sendo vivido, e menos uma tentativa de
nos fazer entender esta vivência.
Não é à toa que ele faz questão de deixar as manchas, de mostrar os “erros”,
porque estes são índices de sua passagem, e de como seus pensamentos se
deslocam, faz dos desenhos documentos de experiências únicas.
Os trabalhos de Marcelo quase sempre não silenciam quanto sua condição
cosmopolita: Signos lingüísticos e gráficos acabam entregando suas
passagens por Goiana, NY, Quebec, Madri, Recife...
Nesta exposição temos a oportunidade de ver (e fruir) a vivência do artista em
sua passagem por aqui. Nos desenhos em grande escala, nos é dado perceber
a experiência do corpo: emoções e fluxos de pensamento que ele deixa
extravasar no uso do bastão de tinta óleo e grafite. Já no livro de artista, uma
espécie de diário gráfico, e no mural feito com lambe-lambes, podemos ter
acesso ao acervo iconográfico captado pela experiência do seu olhar – que
poucos de nós conseguem perceber, talvez, por nossa condição de
permanência.
A reincidência das escadarias nos desenhos Marcelo Solá, desafiadoramente,
me convida ao lugar de passagem: ir em busca do topo para a contemplação, e
ainda que fique por lá por pouco tempo, tenho o vislumbre do UNIVERSO (que
outros chamam a Biblioteca)*.
PROJETO PENSAMENTO EMERGENTE
* Jorge Luis Borges em A Biblioteca de Babel
Fotografia: Mozart Santos / Flora Pimentel
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